{"id":115,"date":"2019-09-29T19:54:48","date_gmt":"2019-09-29T19:54:48","guid":{"rendered":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/?p=115"},"modified":"2019-09-29T20:11:30","modified_gmt":"2019-09-29T20:11:30","slug":"historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/2019\/09\/29\/historia\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leitura dos quatro textos<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>\u201c<em>Hic in incipit inquisitio Villa que vocatur Sanctus Cosmatus et parrochianorum Ecclesie ejusdem loci; Vincentius Pelagii, prelatus ejusdem ecclesie, juratus et interrogatus cujus est ipsa Ecclesia dixit quod est de sue prog\u00e9nie pretoris Domini Menendi Estrema, et de presentationem ipsorum Portuensis Episcopus (\u2026)<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li><em>(\u2026) Interrrogatus de villa Sancti Michaelis quot casalia habentur ibi, dixit quod viij et dixit quod est unum Johannis Fernandi de Tamial. Interrogatus unde habuit illud, dixit quod de casamento sue uxoris. Interrogatus si faciunt inde aliquod f\u00f3rum Domino Regis, dixit quod dant j solidum anuatium\u00a0 Domino Regi. Et sunt iiij casalia citofacte. Interrogatus si faciunt inde aliquod f\u00f3rum Domino Regi, dixit quod dant singulos s\u00f3lidos anuatim de renda. Interrogatus unde habuit ea, dixit\u00a0 quod duo casalia fuerunt\u00a0 Militum de Medenis, et unum\u00a0 fuit de Badim\u00a0 et unum dixit quod\u00a0 nescit unde\u00a0 habuit illud. Et tria sun Sedis Portuensis. Interrogatus unde habuit ea, dixit quod unum fuit de heredatoribus et mandaverunt illud ibi pro animabus eorum. Interrogatus si intrat\u00a0 ibi Maiordomus, dixit quod sic. Interrogatus si nutriverunt ibi filium vel filiam (alicujus militi) per quos amisset Dominus Rex jus suum , dixit quod non. Interrogatus si moratur ibi aliquis homo forarius, dixit\u00a0 quod non. Interrogatus si habet ibi Dominus Rex aliquod regalengum, dixit quod non\u201d (\u2026)<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"3\">\n<li><em>(\u2026) Sunt iiijville herme, scilicet, Sangimir, Sanctus Michael et Pinarius et Valbonus (\u2026)<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"4\">\n<li><em> (\u2026) Menendus Petri, judex de Gondomar. Omnes isti perhibuerunt predictum testimonium verbo e verbum quilibet per se sicut primus\u201d.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><strong>Tradu\u00e7\u00e3o dos quatro textos<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><strong>\u201cCome\u00e7a aqui a inquiri\u00e7\u00e3o da vila de S. Cosme e dos paroquianos da Igreja deste lugar. Vicente Pel\u00e1gio, prelado desta Igreja, depois de ter jurado <\/strong><em>(dizer a verdade),<\/em><strong> foi interrogado sobre a propriedade desta igreja; respondeu dizendo que era da sua fam\u00edlia pret\u00e9rita, cujo chefe era Dom Menendo Estrema mas o direito da nomea\u00e7\u00e3o do prelado pertencia ao Bispo do Porto\u201d. (\u2026)<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>(O prelado de S. Cosme, Vicente Pel\u00e1gio, continua a prestar declara\u00e7\u00f5es aos ju\u00edzes de Afonso III; muito firme, e usando de uma mem\u00f3ria prodigiosa, que nada deixa escapar, d\u00e1 conta de todos os esbulhos, roubos de propriedade e direitos r\u00e9gios, cometidos pela nobreza e pela Igreja na par\u00f3quia de S. Cosme, julgado de Gondomar. Respondidas todas as perguntas dos ju\u00edzes sobre a vila de S. Cosme, onde se erguia a igreja paroquial, passa \u00e0 vila de S. Miguel, que era uma anexa de S. Cosme).<\/em><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>(\u2026) \u201cInterrogado sobre a vila de S. Miguel, quantos casais a\u00ed havia, disse que eram oito, referindo que um era de Jo\u00e3o Fernandes de Tamial. Interrogado sobre a sua origem, respondeu que o recebeu do casamento com a sua esposa. Interrogado se faziam dele algum foro ao Senhor Rei, respondeu que pagam um s\u00f3lido anual ao Senhor Rei.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quatro <\/strong><em>(dos oito casais<\/em>)<strong> j\u00e1 eram antigos. Interrogado se pagavam por eles algum foro ao Senhor Rei, respondeu que d\u00e3o um s\u00f3lido por casal de renda anual. Interrogado sobre a sua origem, respondeu que dois casais foram de um cavaleiro da Meda, outro era de Badim e sobre o outro nada sabia. Tr\u00eas eram da S\u00e9 do Porto. Interrogado como tinham sido adquiridos, disse que um tinha sido de herdeiros, os quais tinham feito doa\u00e7\u00e3o <\/strong><em>(\u00e0 S\u00e9)<\/em><strong> pelo sufr\u00e1gio da sua alma. Interrogado se entrava a\u00ed o Mordomo <\/strong><em>(do rei)<\/em><strong>, disse que sim. Interrogado se tinham a\u00ed criado um filho ou filha de algum cavaleiro, pelos quais o Senhor Rei perdera algum direito, respondeu que n\u00e3o. Interrogado se moravam a\u00ed alguns homens foreiros <\/strong><em>(do Rei)<\/em><strong>, disse que n\u00e3o. Interrogado se o Senhor Rei tinha a\u00ed algum reguengo, disse que n\u00e3o\u201d (\u2026)<\/strong><\/p>\n<p><em>Mais \u00e0 frente, quando o prelado de S. Cosme, Vicente Pel\u00e1gio, j\u00e1 respondia \u00e0s perguntas dos ju\u00edzes de Afonso III sobre outras vilas anexas de S. Cosme, referiu<\/em><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>\u201cque havia quatro vilas ermas: Sangemil, S. Miguel, Pinheiro e Valbom\u201d (\u2026).<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>No final, assinam este testemunho, conjuntamente com o prelado, outros habitantes de S. Cosme, confirmando as declara\u00e7\u00f5es do cl\u00e9rigo. Entre eles estava <\/em><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><em>\u201c<\/em><strong>o juiz de Gondomar, Mendo Pires\u201d.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Notas:<\/p>\n<ol>\n<li>A inquiri\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio de entre Douro e T\u00e2mega, onde se localizava a Par\u00f3quia de S. Cosme, Julgado de Gondomar, decorreu entre 16 de maio e 23 e Outubro do ano de 1258; a al\u00e7ada, composta por dois ju\u00edzes e dois escriv\u00e3es, percorreu aquele largo espa\u00e7o por ordem do Rei D. Afonso III.<\/li>\n<li>O texto consultado na Biblioteca P\u00fablica do Porto, j\u00e1 em letra actual, transcreve a primeira c\u00f3pia, que datamos entre 1258 e 1302. Este traslado, retirado das actas originais, que n\u00e3o chegaram at\u00e9 n\u00f3s, encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de Lisboa e foi redigida em letra g\u00f3tica sobre pergaminho \u2013 pele de cordeiro &#8212; que era o papel da altura\u2026 Tamb\u00e9m ainda se usava o latim na documenta\u00e7\u00e3o produzida pela chancelaria r\u00e9gia e por outros organismos do reino; o portugu\u00eas s\u00f3 a partir do reinado seguinte, de D. Dinis, \u00e9 que come\u00e7ou a vingar.<\/li>\n<li>A igreja de S. Cosme era ent\u00e3o privada, pertencendo \u00e0 linhagem de D. Mendo Estrema. Embora a apresenta\u00e7\u00e3o do prelado fosse do bispo do Porto, o cl\u00e9rigo, em fun\u00e7\u00f5es no ano de 1258, Vicente Pel\u00e1gio, era desta fam\u00edlia; ou seja, o direito da S\u00e9 do Porto era puramente formal, porque a linhagem, que detinha propriedade da Igreja, tamb\u00e9m <em>metia<\/em> l\u00e1 o padre\u2026.<\/li>\n<li>Na vila de S. Miguel havia 8 casais, cerca 30 habitantes; das oito explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, 4 eram novas, pertencendo uma a Jo\u00e3o Fernandes de Tamial e outras 3 \u00e0 S\u00e9 do Porto; o primeiro pagava um s\u00f3lido anual de foro ao Rei \u2013 o fisco da altura\u2026; a diocese do Porto fugia ao imposto; um dos tr\u00eas casais da S\u00e9 tinha sido obtido por doa\u00e7\u00e3o de herdeiros, que assim abriam o caminho antecipado do c\u00e9u \u00e0 sua alma\u2026<\/li>\n<li>Os outros 4 casais de S. Miguel eram antigos, <em>citofacte<\/em>, ou seja, \u00e0 letra, <em>cedo feitos<\/em>. Esta refer\u00eancia empurra muito para tr\u00e1s de 1258 a origem destes casais; quer a mem\u00f3ria directa do prelado, quer a que lhe foi transmitida pelos seus antepassados n\u00e3o situavam no tempo a funda\u00e7\u00e3o destas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas; se assim era, a funda\u00e7\u00e3o da vila de S. Miguel tinha tamb\u00e9m uma cronologia antiga, provavelmente dos in\u00edcios s\u00e9c. XII, anterior \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de Portugal, em 1143;<\/li>\n<li>Dois, destes 4 casais antigos, tinham pertencido a um cavaleiro da Meda, <em>(Medenis, no texto original)<\/em> enquanto outro era de Badim; quanto ao quarto, o prelado de S. Cosme n\u00e3o lhe sabia a origem; a Meda era outro lugar do julgado de Gondomar, sendo hoje uma freguesia; Badim referia-se ao lugar de Baguim, actualmente tamb\u00e9m uma freguesia de Gondomar; neste caso, ou o escriv\u00e3o grafou erradamente Badim, trocando o \u201cG\u201d pelo \u201cD\u201d, ou ent\u00e3o era assim que se escrevia no s\u00e9c. XIII, tendo posteriormente passado a chamar-se Baguim do Monte.<\/li>\n<li>A autoridade (o mordomo do Rei) n\u00e3o s\u00f3 entrava nos casais do monarca \u2013 que eram os 4 mais antigos &#8212; como tamb\u00e9m nos outros 4 novos, um de Jo\u00e3o Fernandes e os outros 3 da S\u00e9 do Porto.<\/li>\n<li>A refer\u00eancia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um filho ou filha de um nobre na Vila de S. Miguel tinha a ver com o facto desta situa\u00e7\u00e3o, muito usada pela nobreza, constituir um instrumento de sonega\u00e7\u00e3o de bens \u00e0 Coroa (Estado); como vemos no texto, a testemunha n\u00e3o conhecia nenhum caso destes na vila de S. Miguel de Gondomar.<\/li>\n<li>Nos 3 casais da Diocese do Porto, n\u00e3o morava nenhum foreiro do rei; quer dizer, o bispo n\u00e3o pagava o foro respectivo \u00e0 Coroa, como era imperativo solver; assim, tr\u00eas, dos oito casais da vila de S. Miguel, andavam fugidos ao fisco do Rei.<\/li>\n<li>No termo da vila de S. Miguel n\u00e3o tinha o rei qualquer reguengo, isto \u00e9, n\u00e3o havia j\u00e1 espa\u00e7o vazio para fundar mais vilas.<\/li>\n<li>No entanto, o prelado de S. Cosme foi dizendo aos ju\u00edzes do monarca que na \u00e1rea da par\u00f3quia havia 4 vilas ermas: Sangemil, S. Miguel, Pinheiro e Valbom; o que \u00e9 que isto quer dizer, se em S. Miguel havia 8 casais? A leitura s\u00f3 pode ser aquela que nos leva a concluir que 8 casais era um n\u00famero muito reduzido para a \u00e1rea do seu termo; ou seja, podiam ainda constituir-se outras explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, talvez mais 16; porque, tendo j\u00e1 8, era considerada pelo cl\u00e9rigo como uma vila despovoada; o espa\u00e7o abandonado rondaria assim os dois ter\u00e7os do termo de S. Miguel.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"12\">\n<li>Do ponto anterior, podemos ainda concluir que os 4 casais novos tinham sido criados j\u00e1 no decurso do reinado de Afonso III, que sucedera ao seu irm\u00e3o, o rei Sancho II, demitido pelo Papa Inoc\u00eancio IV, que o considerou um rei in \u00fatil, incapaz de pacificar o Reino. Ou seja, a ordem imposta pelo novo monarca estava a criar condi\u00e7\u00f5es de paz, postulado imprescind\u00edvel para o repovoamento do julgado de Gondomar e do pa\u00eds. E, dos casais anteriores \u00e0 guerra civil, existentes em S. Miguel, s\u00f3 quatro \u2013 os velhos \u2013 tinham escapado, no meio das viol\u00eancias desencadeadas pelos partid\u00e1rios do rei deposto e pelos que alinharam com a investidura do seu irm\u00e3o, Afonso III, como novo Rei de Portugal.<\/li>\n<li>Por isso, devemos ao caos social, que resultou deste violento enfrentamento pol\u00edtico e militar, a entrada na documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da vila de S. Miguel de Gondomar. Terminada a confronta\u00e7\u00e3o militar, o novo rei vai impor a ordem. E, para a aplicar, precisa de saber qual tinha sido o rombo feito na propriedade r\u00e9gia pelos magnates: a nobreza, a igreja e as ordens militares, que tinham aproveitado a confus\u00e3o geral para alargarem os seus dom\u00ednios \u00e0 custa da propriedade p\u00fablica, tendo procedido \u00e0 sua quase total feudaliza\u00e7\u00e3o, deixando o Rei <em>de m\u00e3os a abanar<\/em>\u2026.<\/li>\n<li>Das quatro vilas dependentes da vila e par\u00f3quia de S. Cosme, onde se localizava a sede do julgado de Gondomar, s\u00f3 Valbom se autonomizou, sendo j\u00e1 em, 1258, uma vila e par\u00f3quia independente, agregando a antiga vila do Pinheiro; quanto a S. Miguel, manteve-se sufrag\u00e2nea de S. Cosme, que tamb\u00e9m continuou a vincular Sangemil;<\/li>\n<li>O facto de S. Miguel e Sangemil constitu\u00edrem em 1258, e contemporaneamente, dois lugares da freguesia de S. Cosme n\u00e3o anulam a hip\u00f3tese de, ainda durante a Idade M\u00e9dia \u2013 at\u00e9 meados do s\u00e9c. XIV &#8212; terem sido par\u00f3quias e freguesias independentes, embora seja pouco veros\u00edmil, porque a peste negra de 1348 ceifou mais de metade da popula\u00e7\u00e3o portuguesa e europeia; esta septicemia geral levou a aglutinar muitas freguesias, antes aut\u00f3nomas, dado o n\u00famero reduzido dos sobreviventes.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"16\">\n<li>De qualquer modo, quer S. Miguel tenha ainda sido promovida a freguesia, quer n\u00e3o, \u00e9 elevada a probabilidade de se ter erguido aqui uma capela ao seu patrono.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A exist\u00eancia da sua imagem parece confirm\u00e1-lo. E, tendo ficado na Quinta, onde resistiu no nicho, induz-nos a forte possibilidade de que a antiga ermida\/capela se localizava nos terrenos da propriedade. A topon\u00edmia e a arqueologia poder\u00e3o aqui ser chamadas a dilucidar esta quest\u00e3o. Por isso, qualquer revolvimento de terras deve ser feito com especial cuidado, caso se queira tirar isto a limpo. <strong>Junta-se a esta argumenta\u00e7\u00e3o o facto de, em 1758, quinhentos anos depois da inquiri\u00e7\u00e3o que temos vindo a comentar, existir na Igreja de S. Cosme uma confraria de S. Miguel.<\/strong><\/p>\n<ol start=\"17\">\n<li>Em 1258, S. Cosme a as suas quatro anexas, S. Miguel, Pinheiro, Sangemil e Valbom eram designadas em latim por \u201cvillas\u201d; quando a documenta\u00e7\u00e3o passou a utilizar o portugu\u00eas, no final do s\u00e9c. XIII, as vilas passaram a aldeias, nome que S. Miguel ainda conserva. Continuaram a chamar-se vilas exclusivamente as que se transformaram em sedes concelhias, como foi o caso de S. Cosme e outros munic\u00edpios do pa\u00eds.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Samil, setembro de 2016<\/p>\n<p>Ernesto Albino V<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitura dos quatro textos \u201cHic in incipit inquisitio Villa que vocatur Sanctus Cosmatus et parrochianorum Ecclesie ejusdem loci; Vincentius Pelagii, prelatus ejusdem ecclesie, juratus et interrogatus cujus est ipsa Ecclesia dixit quod est de sue prog\u00e9nie pretoris Domini Menendi Estrema, et de presentationem ipsorum Portuensis Episcopus (\u2026) (\u2026) Interrrogatus de villa Sancti Michaelis quot casalia habentur ibi, dixit quod viij et dixit quod est unum Johannis Fernandi de Tamial. Interrogatus unde habuit illud, dixit quod de casamento sue uxoris. Interrogatus si faciunt inde aliquod f\u00f3rum Domino Regis, dixit quod dant j solidum anuatium\u00a0 Domino Regi. Et sunt iiij casalia citofacte. Interrogatus si faciunt inde aliquod f\u00f3rum Domino Regi, dixit quod dant singulos s\u00f3lidos anuatim de renda. Interrogatus unde habuit ea, dixit\u00a0 quod duo casalia fuerunt\u00a0 Militum de Medenis, et unum\u00a0 fuit de Badim\u00a0 et unum dixit quod\u00a0 nescit unde\u00a0 habuit illud. Et tria sun Sedis Portuensis. Interrogatus unde habuit ea, dixit quod unum fuit de heredatoribus et mandaverunt illud ibi pro animabus eorum. Interrogatus si intrat\u00a0 ibi Maiordomus, dixit quod sic. Interrogatus si nutriverunt ibi filium vel filiam (alicujus militi) per quos amisset Dominus Rex jus suum , dixit quod non. Interrogatus si moratur ibi aliquis homo forarius, dixit\u00a0 quod non. Interrogatus si habet ibi Dominus Rex aliquod regalengum, dixit quod non\u201d (\u2026) (\u2026) Sunt iiijville herme, scilicet, Sangimir, Sanctus Michael et Pinarius et Valbonus (\u2026) (\u2026) Menendus Petri, judex de Gondomar. Omnes isti perhibuerunt predictum testimonium verbo e verbum quilibet per se sicut primus\u201d. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o dos quatro textos \u201cCome\u00e7a aqui a inquiri\u00e7\u00e3o da vila de S. Cosme e dos paroquianos da Igreja deste lugar. Vicente Pel\u00e1gio, prelado desta Igreja, depois de ter jurado (dizer a verdade), foi interrogado sobre a propriedade desta igreja; respondeu dizendo que era da sua fam\u00edlia pret\u00e9rita, cujo chefe era Dom Menendo Estrema mas o direito da nomea\u00e7\u00e3o do prelado pertencia ao Bispo do Porto\u201d. (\u2026) (O prelado de S. Cosme, Vicente Pel\u00e1gio, continua a prestar declara\u00e7\u00f5es aos ju\u00edzes de Afonso III; muito firme, e usando de uma mem\u00f3ria prodigiosa, que nada deixa escapar, d\u00e1 conta de todos os esbulhos, roubos de propriedade e direitos r\u00e9gios, cometidos pela nobreza e pela Igreja na par\u00f3quia de S. Cosme, julgado de Gondomar. Respondidas todas as perguntas dos ju\u00edzes sobre a vila de S. Cosme, onde se erguia a igreja paroquial, passa \u00e0 vila de S. Miguel, que era uma anexa de S. Cosme). (\u2026) \u201cInterrogado sobre a vila de S. Miguel, quantos casais a\u00ed havia, disse que eram oito, referindo que um era de Jo\u00e3o Fernandes de Tamial. Interrogado sobre a sua origem, respondeu que o recebeu do casamento com a sua esposa. Interrogado se faziam dele algum foro ao Senhor Rei, respondeu que pagam um s\u00f3lido anual ao Senhor Rei. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quatro (dos oito casais) j\u00e1 eram antigos. Interrogado se pagavam por eles algum foro ao Senhor Rei, respondeu que d\u00e3o um s\u00f3lido por casal de renda anual. Interrogado sobre a sua origem, respondeu que dois casais foram de um cavaleiro da Meda, outro era de Badim e sobre o outro nada sabia. Tr\u00eas eram da S\u00e9 do Porto. Interrogado como tinham sido adquiridos, disse que um tinha sido de herdeiros, os quais tinham feito doa\u00e7\u00e3o (\u00e0 S\u00e9) pelo sufr\u00e1gio da sua alma. Interrogado se entrava a\u00ed o Mordomo (do rei), disse que sim. Interrogado se tinham a\u00ed criado um filho ou filha de algum cavaleiro, pelos quais o Senhor Rei perdera algum direito, respondeu que n\u00e3o. Interrogado se moravam a\u00ed alguns homens foreiros (do Rei), disse que n\u00e3o. Interrogado se o Senhor Rei tinha a\u00ed algum reguengo, disse que n\u00e3o\u201d (\u2026) Mais \u00e0 frente, quando o prelado de S. Cosme, Vicente Pel\u00e1gio, j\u00e1 respondia \u00e0s perguntas dos ju\u00edzes de Afonso III sobre outras vilas anexas de S. Cosme, referiu \u201cque havia quatro vilas ermas: Sangemil, S. Miguel, Pinheiro e Valbom\u201d (\u2026). No final, assinam este testemunho, conjuntamente com o prelado, outros habitantes de S. Cosme, confirmando as declara\u00e7\u00f5es do cl\u00e9rigo. Entre eles estava \u201co juiz de Gondomar, Mendo Pires\u201d. Notas: A inquiri\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio de entre Douro e T\u00e2mega, onde se localizava a Par\u00f3quia de S. Cosme, Julgado de Gondomar, decorreu entre 16 de maio e 23 e Outubro do ano de 1258; a al\u00e7ada, composta por dois ju\u00edzes e dois escriv\u00e3es, percorreu aquele largo espa\u00e7o por ordem do Rei D. Afonso III. O texto consultado na Biblioteca P\u00fablica do Porto, j\u00e1 em letra actual, transcreve a primeira c\u00f3pia, que datamos entre 1258 e 1302. Este traslado, retirado das actas originais, que n\u00e3o chegaram at\u00e9 n\u00f3s, encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de Lisboa e foi redigida em letra g\u00f3tica sobre pergaminho \u2013 pele de cordeiro &#8212; que era o papel da altura\u2026 Tamb\u00e9m ainda se usava o latim na documenta\u00e7\u00e3o produzida pela chancelaria r\u00e9gia e por outros organismos do reino; o portugu\u00eas s\u00f3 a partir do reinado seguinte, de D. Dinis, \u00e9 que come\u00e7ou a vingar. A igreja de S. Cosme era ent\u00e3o privada, pertencendo \u00e0 linhagem de D. Mendo Estrema. Embora a apresenta\u00e7\u00e3o do prelado fosse do bispo do Porto, o cl\u00e9rigo, em fun\u00e7\u00f5es no ano de 1258, Vicente Pel\u00e1gio, era desta fam\u00edlia; ou seja, o direito da S\u00e9 do Porto era puramente formal, porque a linhagem, que detinha propriedade da Igreja, tamb\u00e9m metia l\u00e1 o padre\u2026. Na vila de S. Miguel havia 8 casais, cerca 30 habitantes; das oito explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, 4 eram novas, pertencendo uma a Jo\u00e3o Fernandes de Tamial e outras 3 \u00e0 S\u00e9 do Porto; o primeiro pagava um s\u00f3lido anual de foro ao Rei \u2013 o fisco da altura\u2026; a diocese do Porto fugia ao imposto; um dos tr\u00eas casais da S\u00e9 tinha sido obtido por doa\u00e7\u00e3o de herdeiros, que assim abriam o caminho antecipado do c\u00e9u \u00e0 sua alma\u2026 Os outros 4 casais de S. Miguel eram antigos, citofacte, ou seja, \u00e0 letra, cedo feitos. Esta refer\u00eancia empurra muito para tr\u00e1s de 1258 a origem destes casais; quer a mem\u00f3ria directa do prelado, quer a que lhe foi transmitida pelos seus antepassados n\u00e3o situavam no tempo a funda\u00e7\u00e3o destas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas; se assim era, a funda\u00e7\u00e3o da vila de S. Miguel tinha tamb\u00e9m uma cronologia antiga, provavelmente dos in\u00edcios s\u00e9c. XII, anterior \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de Portugal, em 1143; Dois, destes 4 casais antigos, tinham pertencido a um cavaleiro da Meda, (Medenis, no texto original) enquanto outro era de Badim; quanto ao quarto, o prelado de S. Cosme n\u00e3o lhe sabia a origem; a Meda era outro lugar do julgado de Gondomar, sendo hoje uma freguesia; Badim referia-se ao lugar de Baguim, actualmente tamb\u00e9m uma freguesia de Gondomar; neste caso, ou o escriv\u00e3o grafou erradamente Badim, trocando o \u201cG\u201d pelo \u201cD\u201d, ou ent\u00e3o era assim que se escrevia no s\u00e9c. XIII, tendo posteriormente passado a chamar-se Baguim do Monte. A autoridade (o mordomo do Rei) n\u00e3o s\u00f3 entrava nos casais do monarca \u2013 que eram os 4 mais antigos &#8212; como tamb\u00e9m nos outros 4 novos, um de Jo\u00e3o Fernandes e os outros 3 da S\u00e9 do Porto. A refer\u00eancia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um filho ou filha de um nobre na Vila de S. Miguel tinha a ver com o facto desta situa\u00e7\u00e3o, muito usada pela nobreza, constituir um instrumento de sonega\u00e7\u00e3o de bens \u00e0 Coroa (Estado); como vemos no texto, a testemunha n\u00e3o conhecia nenhum caso destes na vila de S. Miguel de Gondomar. Nos 3 casais da Diocese do Porto, n\u00e3o morava nenhum foreiro do rei; quer dizer, o bispo n\u00e3o pagava o foro respectivo \u00e0 Coroa, como era imperativo solver; assim, tr\u00eas, dos oito casais da vila de S. Miguel, andavam fugidos ao fisco do Rei. No termo da vila de S. Miguel n\u00e3o tinha o rei qualquer reguengo, isto \u00e9, n\u00e3o havia j\u00e1 espa\u00e7o vazio para fundar mais vilas. No entanto, o prelado de S. Cosme foi dizendo aos ju\u00edzes do monarca que na \u00e1rea da par\u00f3quia havia 4 vilas ermas: Sangemil, S. Miguel, Pinheiro e Valbom; o que \u00e9 que isto quer dizer, se em S. Miguel havia 8 casais? A leitura s\u00f3 pode ser aquela que nos leva a concluir que 8 casais era um n\u00famero muito reduzido para a \u00e1rea do seu termo; ou seja, podiam ainda constituir-se outras explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, talvez mais 16; porque, tendo j\u00e1 8, era considerada pelo cl\u00e9rigo como uma vila despovoada; o espa\u00e7o abandonado rondaria assim os dois ter\u00e7os do termo de S. Miguel. Do ponto anterior, podemos ainda concluir que os 4 casais novos tinham sido criados j\u00e1 no decurso do reinado de Afonso III, que sucedera ao seu irm\u00e3o, o rei Sancho II, demitido pelo Papa Inoc\u00eancio IV, que o considerou um rei in \u00fatil, incapaz de pacificar o Reino. Ou seja, a ordem imposta pelo novo monarca estava a criar condi\u00e7\u00f5es de paz, postulado imprescind\u00edvel para o repovoamento do julgado de Gondomar e do pa\u00eds. E, dos casais anteriores \u00e0 guerra civil, existentes em S. Miguel, s\u00f3 quatro \u2013 os velhos \u2013 tinham escapado, no meio das viol\u00eancias desencadeadas pelos partid\u00e1rios do rei deposto e pelos que alinharam com a investidura do seu irm\u00e3o, Afonso III, como novo Rei de Portugal. Por isso, devemos ao caos social, que resultou deste violento enfrentamento pol\u00edtico e militar, a entrada na documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da vila de S. Miguel de Gondomar. Terminada a confronta\u00e7\u00e3o militar, o novo rei vai impor a ordem. E, para a aplicar, precisa de saber qual tinha sido o rombo feito na propriedade r\u00e9gia pelos magnates: a nobreza, a igreja e as ordens militares, que tinham aproveitado a confus\u00e3o geral para alargarem os seus dom\u00ednios \u00e0 custa da propriedade p\u00fablica, tendo procedido \u00e0 sua quase total feudaliza\u00e7\u00e3o, deixando o Rei de m\u00e3os a abanar\u2026. Das quatro vilas dependentes da vila e par\u00f3quia de S. Cosme, onde se localizava a sede do julgado de Gondomar, s\u00f3 Valbom se autonomizou, sendo j\u00e1 em, 1258, uma vila e par\u00f3quia independente, agregando a antiga vila do Pinheiro; quanto a S. Miguel, manteve-se sufrag\u00e2nea de S. Cosme, que tamb\u00e9m continuou a vincular Sangemil; O facto de S. Miguel e Sangemil constitu\u00edrem em 1258, e contemporaneamente, dois lugares da freguesia de S. Cosme n\u00e3o anulam a hip\u00f3tese de, ainda durante a Idade M\u00e9dia \u2013 at\u00e9 meados do s\u00e9c. XIV &#8212; terem sido par\u00f3quias e freguesias independentes, embora seja pouco veros\u00edmil, porque a peste negra de 1348 ceifou mais de metade da popula\u00e7\u00e3o portuguesa e europeia; esta septicemia geral levou a aglutinar muitas freguesias, antes aut\u00f3nomas, dado o n\u00famero reduzido dos sobreviventes. De qualquer modo, quer S. Miguel tenha ainda sido promovida a freguesia, quer n\u00e3o, \u00e9 elevada a probabilidade de se ter erguido aqui uma capela ao seu patrono. A exist\u00eancia da sua imagem parece confirm\u00e1-lo. E, tendo ficado na Quinta, onde resistiu no nicho, induz-nos a forte possibilidade de que a antiga ermida\/capela se localizava nos terrenos da propriedade. A topon\u00edmia e a arqueologia poder\u00e3o aqui ser chamadas a dilucidar esta quest\u00e3o. Por isso, qualquer revolvimento de terras deve ser feito com especial cuidado, caso se queira tirar isto a limpo. Junta-se a esta argumenta\u00e7\u00e3o o facto de, em 1758, quinhentos anos depois da inquiri\u00e7\u00e3o que temos vindo a comentar, existir na Igreja de S. Cosme uma confraria de S. Miguel. Em 1258, S. Cosme a as suas quatro anexas, S. Miguel, Pinheiro, Sangemil e Valbom eram designadas em latim por \u201cvillas\u201d; quando a documenta\u00e7\u00e3o passou a utilizar o portugu\u00eas, no final do s\u00e9c. XIII, as vilas passaram a aldeias, nome que S. Miguel ainda conserva. Continuaram a chamar-se vilas exclusivamente as que se transformaram em sedes concelhias, como foi o caso de S. Cosme e outros munic\u00edpios do pa\u00eds. Samil, setembro de 2016 Ernesto Albino V<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115"}],"collection":[{"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":123,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115\/revisions\/123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/goldnature.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}